quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

O retorno para Desde o começo.

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E depois de tudo, choveu. Tamanha força e revolta d’água, ela nunca antes vira. Mas nenhuma daquelas gotas ininterruptas e doídas quando caídas sobre a pele fina do rosto a assustavam, a impressionavam ou tampouco a aborreciam. Suas lágrimas lhe pareciam mais molhadas e intensas que todo aquele aguaceiro, um cenário quase manso sob seu olhar lagrimejado.

Naquele exato instante, ela teria jurado a manhã anterior impossível de ser vivida por qualquer ser humano. Como poderia ser real tamanha leveza d’alma e de corpo, e toda uma sensibilidade aflorada para sentir em profundidade a tranqüila respiração d'outro? Hoje, aquela manhã parecia-lhe o sonho bom e aconchegante que tivera no despertar da mocidade, ou nada além de uma lembrança longínqua que a acompanhara por séculos de reencarnações em vidas tristes e malditas.

Chovia, chovia como ela nunca vira antes! mas agora ela também não via. Agora, em nada pensava, só sentia. Sentia lágrimas escorrendo por todo o corpo e inundando o duro chão de pedra. Suas lágrimas a encharcavam de um choro tão desesperado que, sem ela percebesse, faziam-na soluçar; ela afogava nos próprios soluços e tremia, e assim vendo-a jamais alguém
saberia explicar porque como estando tão doída podiam seus soluços ecoar para confundir-se com o alegre coaxar dos sapos. O largo rio, ao longe, já há minutos transbordara. Tudo alagava, mas nada ela percebia. Só podia Sentir aquela mistura de sonho e lembrança vivida ainda tão recentemente e já tão distante: algumas horas passadas que ela já quase não mais podia identificar. E sentindo seu sonho-lembrança, sentia-se molhada e órfã.

Em pé e imóvel sob a chuva ela permaneceu. Queria tivesse sido por toda eternidade, mas não morreu. Queria tivesse sido até que se dissipassem todas as sensações de suas mais remotas existências, mas seu corpo e sua alma negavam-se: sem que a razão quisesse permitir, seu corpo e sua alma sentiam os odores e ruídos daquela lembrança, teimando recordar o sonho não dormido. O labirinto que nela se entranhava, parecia criar raízes para nunca mais. Que fizeste ela - finalmente permitiu-se pensar-, para merecer num dia os doces do paraíso e, no seguinte, tanta desgraça?

Josenildo Matias Corrêa, seu amigo desde a infância, uma espécie de primo ou meio irmão de quem ela sempre fora próxima e para quem sempre quis exibir seus encantos de moça nova, morrera naquela manhã, atropelado na esquina da rua São João. Rua deveras cantada da área central daquela rica e hostil gigante capital. Morreu dois dias depois de chegar acompanhado por sua jovem esposa. Vinham de de terras longínquas e secas.

Após um dia inteiro imóvel sob a acidez das águas que a enxarcavam, Inês resolveu retornar às terras em que nasceram, ela e Josenildo. No caminho de volta, sabia ela, suas lágrimas secariam, pois as terras às quais retornava eram terras nordestinas: sem chuvas, duras e secas. Terras que engoliriam sem pudor as suas lágrimas.
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Um comentário:

Tarcisio Torres disse...

Olá Andreia,

Achei interessante vc postar esse texto um dia antes de assistirmos O Céu de Sueli.

Belo texto, continua postando e interaja aqui com a gente no mundo dos blogs.

Abraços