terça-feira, 9 de outubro de 2007

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Não escrevo poesias, não enceno alegorias,
nem invento tantas mil coloridas histerias
pra fazer rimar em feliz perfeita nota meu caminho com o teu.

Trilhas tortas, becos sem portas,
trajetos que não se deixam docilmente conquistar
por um tão fácil e ébrio cantar de mal vividas boemias!

Boemia pra valer vem afogada na tristeza,
Na saudade e na vontade de
uma vez que seja mais
arranjar a difícil sintonia entre o aqui e o aí.

Está a valer por existências bem mais vivas,
de sóis noturnos e tão raros prazeres que entorpecem;
de lunares dias e tantas sutilezas que enternecem;
Não pelo comodismo: pelo não aceitar dócil.
Não pelo efêmero lirismo : pelo arredio de um querer e não querer que ama.

Pra assim, e pra mais fundo,
na fundura leveza que deixa-nos a alma sem à tona poder ir, respirar,
em mim entrecruzo, estrada reta,
teus abismos que desafiam;
E em cruzamentos nos arriscamos,
a nessa nossa encruzilhada agora ir ou não
........... nos encontrar....
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quinta-feira, 5 de julho de 2007

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Vidas e mentes desfeitas. Povos sem rumos, vagando errantes. Tudo submerso em gazes rarefeitos. E intoxicados pulmões malfeitos de crianças disformes, adultos não crescidos rendidos pelo massacre dessas nuvens de fumaça, indiferença e desgraça que cruzam seus olhos em velozes luzes e ofuscam seus entendimentos.



Queria ter ainda o bom discernimento entre o dia e a noite. Foi o que pensou, esfregando-se nos trapos sujos que cobriam sua pele opaca e sua carne pouca, por finos ossos erguida em posição arqueada.

Ninguém ouviu! Quem ouve pensamentos? ... mas de nada adiantaria grunhir simbologias audíveis, ninguém perceberia. E de nada adiantaria alçar as mãos e os pés em pleno ar, em movimentos designificados que ninguém quer notar... Tudo como de costume prosseguia.

Os ossos, as carnes e o sangue daquele corpo de rala espessura eram invisíveis aos olhares refinados. A eles sua frágil corporeidade inexistia, mesmo que vagasse pelas ruas, mesmo que os esbarrasse, mesmo que rasgasse as próprias tripas em frente à Praça da Sé, sob a luz ardente do sol à pino, ou ainda se (se) quisesse (um) ser humano. Toda uma materialidade, imperceptível senão a ele próprio: sua fome, seu frio, sua dor e solidão, seu medo e todo o seu ódio, pesavam só a ele, só a ele importunavam... Maldito traste! preferiria não existisse,... ou se dissipem tais poucas e opacas veias, prestáveis apenas a nutrir o peso de tão rala existência corpórea que inexiste no mundo de concreto. Mas como escapar ao concreto do mundo?

E nem mais distinguia o dia da noite... E ia assim escapando, então.... Mas não poderia ser... Não podia ainda assim ir, tão despercebidamente, indo como era, sem causar um menor transtorno aos tão delicados olhares que não podiam distinguir-lo de um inerte obstáculo à bela paisagem da cidade. Não podia... não antes de beber o sangue quente de dez quaisquer destes de quem percebia tanta indiferença: os beberia em plena luz de um sol à pino, na Paça da Sé. E após, abriria as próprias tripas, malditas tripas como nunca antes saciadas pelo grotesco olhar que arrancara das gentes que transitam na cidade.

Mas diabos de sol querendo se esconder! Não queria ainda ir indo, indo assim... Mas já ia perdendo o discernimento entre o dia e a noite, e ia.
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quarta-feira, 30 de maio de 2007

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Serias o inferno, se eu não te desejasse tanto!
Mas quem disse que tenho pena de mim? e o que sempre digo é que prefiro o tempo quente e o gosto menos sóbrio que encontro em tua taça quase vazia. E de novo, eu iria querer enchê-la, só para que tua partida se adiasse um pouco mais. E então eu de novo! e eu teimando prolongar os instantes em que estás aqui ao meu lado, como se pudesse o tempo esticar até o limite do infinito.
Porque sempre eu, em sua ausência, esvazio garrafas pra ver se preencho a falta que me faz. E ai só faço e desfaço para acreditar que posso acelerar esses dias em que você não esta por aqui, por bem perto, porque...
bem, eu acho que te disse dia desses, tenho teimosias. E sem querer me pego teimando em crer que minha vontade de ti é todo o bastante para mandar um próximo instante te carregar pra o meu lado, de novo.
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segunda-feira, 7 de maio de 2007

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No instante em que tudo se fez mais claro, ela parou. E, por um segundo apenas, quis ver o vento passar. E então andou, atendendo ao chamado daquela brisa mansa e doce que se fazia como que para tentar encobrir a aspereza da areia arranhando os pés. O claro do sol transparecia por através da brisa mansa e doce. E assim essa claridade também cheirava mansamente adocicada, entorpecendo o gosto dos arranhões que incomodam... Açúcar que derrete na panela... Descalça, caminhava respirando esse ar que poderia ter lhe lembrado os anos em que morou com a avó; mas por mais que dos brinquedos e pirulitos ela tivesse um dia gostado, não os lembrou. Naquele agora, lembrava só o que estava sendo, continuando andando, difícil, mas sem deixar ir a alegriazinha.
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sexta-feira, 27 de abril de 2007

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Se te calas por um segundo apenas, nada mais sinto que tua solidão triste.
Se já não me das teu olhar desse teu jeito, nem o frio do mundo me incomoda mais que esse teu.
Se te afastas sem avisar, como desde o primeiro instante eu sabia que irias,... aqui permaneço a esperar o tempo te buscar.

A todo instante o esperado me espanta,
Toda a tua previsibilidade me surpreende,
a cada hora,
a cada segundo, tua espera me parece irremediavelmente eterna.
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quinta-feira, 26 de abril de 2007

desaprender

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Antes de ir pelo ralo, agente gira-gira-gira-gira. Gira feito criança no parque,
e tanto, tanto até ficar tonto ... Aí então é que se escorrega!
Se vai pelo cano, mas não como fosse escorregador: é mais escorregão em casca de banana; escorregão de quem tentou se segurar pra não dar de cara no chão, e deu.

Depois de uns anos girando, se desaprende.
Se esquece de vez por outra esquecer da maquiagem, e se esquecer.
Depois de uns anos, vem a tontura.
E depois do medo... é aí o escorregão.
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segunda-feira, 23 de abril de 2007

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Estar assim à toa, quase inerte, olhando isso que passa: todos passam, tudo passa.


Ah! fiquei por algumas dezenas de anos assim olhando passarem as passagens que a vida abre e fecha. Aberturas passageiras: já foram antes que tenha tempo de pensar se deve ou não por elas ir.


Se foi não pensou: deu passos largos e só isso.
Se pensou, ... ãh..., não foi: fizeram forma no seu cérebro, as palavras e as imagens, e até pode ser que alargaram as tuas veias até quase estourá-las...
mas lá, fora de você, tudo permaneceu sem um movimeto seu; quase inerte: outras vidas passavam e as folhas caíam.
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domingo, 22 de abril de 2007

Em verso musicado

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Eu amo ouvir a tua poesia escrita no papel.
A tua poesia escrita no papel me grita pra viver, e aí eu te amo.

Foi antes de antes de ontem que ainda nem te conhecia, e sem querer ouvi você me gritar a sua doçura em forma de verso musicado.
Uma doçura bruta e leve, sutilmente marcada pela sua coragem de amar.
A sua virilidade de homem me atrai, mas a sua coragem de assumir um amor mais humano tão mais me seduz.

A palavra dança se a canto! vai..., vai solta e quase pode se perder, se não a seguro numa nota mal afinada.
Já tinha acabado a chuva, o dia em que eu te vi: tudo já estava limpo e as palavras puderam dançar num frescor quase colorido!
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sexta-feira, 20 de abril de 2007

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Gosto azedo na ponta da língua. Parecia como quando agente chupa limão, sabe? Não sabe? Ah! Nunca chupou limão? Experimenta...., sua cara vai contorcer igual fosse uma careta. Porque é ruim; mas acaba que depois é legal: depois que passa fica um fundinho alguma coisa que é bom. Igual hoje, quando me dei conta que não íamos mais nos ver como antes. Sempre me sinto em confusão quando isso acontece e quero chorar só pra parecer que foi mais bonito; mas aí eu rio, pra fingir que não é tão ruim quanto é.
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quarta-feira, 7 de março de 2007

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em passos lentos segue o caminhar que vai para nunca mais...

Vai, em busca de alcançar os abismos que abraçam nossas vidas, essas vidas que, na verdade de verdade mesmo, nunca foram NÓS. eus sozinhos de tão só inalcançáveis, e de tão inalcançáveis de novo sozinhos, cada um isolado por conveniência e egoísmo, medo ou comodismo, ausentando-se e fugindo a cada instante daqueles muito muitíssimo pequeninos, instantes de um milionésimo de segundo recortado em centos, nos quais NÓS poderia ter sido. Mas poderia ter sido, significa não foi e não será. Os instantes de um milionésimo de segundo recortado em centos não se permitem agarrar, mas levam consigo toda a vida que foi e toda aquela que poderia ter sido. Agarram tudo e nada, e nutridos ou ocos vão e não voltam, sem se importar.
Vão para nunca mais, carregando consigo as promessas de cada NÓS que poderia e não foi.
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segunda-feira, 5 de março de 2007

reflexos

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Andou por três dias pelas ruas, vagando sem parada. Sem fome, sem frio nem sede, mas quase exausta. Em passos de quem ia indo, ela seguia em busca d’outros rostos daquele de um tipo que tanto a perturbou. Rostos daqueles que lhe pareciam simular entre o pavor e o gozo, e que lhe despertavam a memória. Seguia-os por simplesmente não se poder livrar do assombro de vê-los; pois como que para crê-los, precisava a cada instante um rever.

Aqueles rostos eram os tristes rostos do cotidiano. O rosto da vida que segue áspera e amarga, a vida não vivida, as vidas que sobrevivem. São os rostos que andam pelas ruas: os rostos nossos.

Mas então, como que num estalo, ela finalmente cessou a caminhada. Estacou em pé mesmo! paralisada. De repente, foi o despertar de um sono sonâmbulo para um transe mudo, de repente...

Na manhã do terceiro dia, ao entrar numa dessas refinadas e caras cafeteiras que nos dias de hoje os homens de dinheiro produzem para o deleite de seus olhos míopes e o dietético adoçar das amarguras, ela encerrou sua busca; numa dessas butiques de cigarros e café, estacou de repente quando, ao adentrar, deparou-se com um enorme e límpido espelho.
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sábado, 24 de fevereiro de 2007

Queria saber

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... queria saber que vou ser Feliz. Mesmo que eu saiba bem mais ou menos o que isso significa.... talvez,
é! talvez, o estado de felicidade seja aquele em que nos vemos sendo o que de mais verdadeiro poderíamos: o que sonhamos ser. Pois, de que outra forma sentiríamos ter tido a coragem de Escolher os nossos sonhos (e isso, nos dois sentidos que se pode entender). Porque de verdade sempre se Escolhe; claro, que não tudo, aliás, tão pouco! mas ainda assim, através do que o mundo faz com a vida de cada um de nós, seguimos por entre as escolhas que tivemos coragem e todas as outras que nos paralisaram e, preferindo não escolher, nos deixamos...

E, perguntas-me: e todos aqueles que sequer puderam sonhar? E aqueles outros que podendo, preferiram fechar os olhos e se dizerem realistas?

E então, agora entendo porque tão poucos têm o direito è Felicidade.
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quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

O retorno para Desde o começo.

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E depois de tudo, choveu. Tamanha força e revolta d’água, ela nunca antes vira. Mas nenhuma daquelas gotas ininterruptas e doídas quando caídas sobre a pele fina do rosto a assustavam, a impressionavam ou tampouco a aborreciam. Suas lágrimas lhe pareciam mais molhadas e intensas que todo aquele aguaceiro, um cenário quase manso sob seu olhar lagrimejado.

Naquele exato instante, ela teria jurado a manhã anterior impossível de ser vivida por qualquer ser humano. Como poderia ser real tamanha leveza d’alma e de corpo, e toda uma sensibilidade aflorada para sentir em profundidade a tranqüila respiração d'outro? Hoje, aquela manhã parecia-lhe o sonho bom e aconchegante que tivera no despertar da mocidade, ou nada além de uma lembrança longínqua que a acompanhara por séculos de reencarnações em vidas tristes e malditas.

Chovia, chovia como ela nunca vira antes! mas agora ela também não via. Agora, em nada pensava, só sentia. Sentia lágrimas escorrendo por todo o corpo e inundando o duro chão de pedra. Suas lágrimas a encharcavam de um choro tão desesperado que, sem ela percebesse, faziam-na soluçar; ela afogava nos próprios soluços e tremia, e assim vendo-a jamais alguém
saberia explicar porque como estando tão doída podiam seus soluços ecoar para confundir-se com o alegre coaxar dos sapos. O largo rio, ao longe, já há minutos transbordara. Tudo alagava, mas nada ela percebia. Só podia Sentir aquela mistura de sonho e lembrança vivida ainda tão recentemente e já tão distante: algumas horas passadas que ela já quase não mais podia identificar. E sentindo seu sonho-lembrança, sentia-se molhada e órfã.

Em pé e imóvel sob a chuva ela permaneceu. Queria tivesse sido por toda eternidade, mas não morreu. Queria tivesse sido até que se dissipassem todas as sensações de suas mais remotas existências, mas seu corpo e sua alma negavam-se: sem que a razão quisesse permitir, seu corpo e sua alma sentiam os odores e ruídos daquela lembrança, teimando recordar o sonho não dormido. O labirinto que nela se entranhava, parecia criar raízes para nunca mais. Que fizeste ela - finalmente permitiu-se pensar-, para merecer num dia os doces do paraíso e, no seguinte, tanta desgraça?

Josenildo Matias Corrêa, seu amigo desde a infância, uma espécie de primo ou meio irmão de quem ela sempre fora próxima e para quem sempre quis exibir seus encantos de moça nova, morrera naquela manhã, atropelado na esquina da rua São João. Rua deveras cantada da área central daquela rica e hostil gigante capital. Morreu dois dias depois de chegar acompanhado por sua jovem esposa. Vinham de de terras longínquas e secas.

Após um dia inteiro imóvel sob a acidez das águas que a enxarcavam, Inês resolveu retornar às terras em que nasceram, ela e Josenildo. No caminho de volta, sabia ela, suas lágrimas secariam, pois as terras às quais retornava eram terras nordestinas: sem chuvas, duras e secas. Terras que engoliriam sem pudor as suas lágrimas.
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