segunda-feira, 5 de março de 2007

reflexos

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Andou por três dias pelas ruas, vagando sem parada. Sem fome, sem frio nem sede, mas quase exausta. Em passos de quem ia indo, ela seguia em busca d’outros rostos daquele de um tipo que tanto a perturbou. Rostos daqueles que lhe pareciam simular entre o pavor e o gozo, e que lhe despertavam a memória. Seguia-os por simplesmente não se poder livrar do assombro de vê-los; pois como que para crê-los, precisava a cada instante um rever.

Aqueles rostos eram os tristes rostos do cotidiano. O rosto da vida que segue áspera e amarga, a vida não vivida, as vidas que sobrevivem. São os rostos que andam pelas ruas: os rostos nossos.

Mas então, como que num estalo, ela finalmente cessou a caminhada. Estacou em pé mesmo! paralisada. De repente, foi o despertar de um sono sonâmbulo para um transe mudo, de repente...

Na manhã do terceiro dia, ao entrar numa dessas refinadas e caras cafeteiras que nos dias de hoje os homens de dinheiro produzem para o deleite de seus olhos míopes e o dietético adoçar das amarguras, ela encerrou sua busca; numa dessas butiques de cigarros e café, estacou de repente quando, ao adentrar, deparou-se com um enorme e límpido espelho.
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